Nós
Vinham de todos os lados em direcção à praça. Dezenas saíam dos autocarros, do metropolitano e, tantos, tantos, a pé, das ruas ao redor. Confluíam em grupos ou isolados, na mesma direcção, levan-do no rosto a alegria, a inquietante exaltação, de quem preenche o momento perfeito, o sublime encontro entre si e a História. Tudo o que aconteceu no passado, escrito ou não, pouco importava, servira apenas de lastro para que cada um, nesse dia, nessa hora, ali se encontrasse para ser o traço de união entre o ido e o porvir.
O trajo de circunstância era o costumeiro. Aquele com que tinham saído de manhã para o trabalho, para as escolas, para as actividades do dia-a-dia, nesse dia diferente de todos os outros que culminava no tremor novo, no sentir diferente, de quem toma de assalto a última barricada e, aí levanta alto, com a mão fechada erguida e um brado profundo de libertação final, a bandeira do seu sangue feita.
Eram centenas, juntando-se, olhavam-se. Mais centenas agora juntos, cantavam, riam, falavam… avançavam. Milhares eram um corpo só, feito de firmeza e de esperança, de um amor fraterno inquebrantável. Homens e mulheres de todas as idades. Iguais.
Os que traziam chapéus-de-chuva, abriam-nos sob a intempérie que já não era ameaça, mesmo para aqueles que de casaco ou blusão e até de camisa apenas, decididos, pensavam no perigo sério em que tinham vivido antes, ou mesmo no perigo agora vivo, que constituiria não se entregarem, generosos e altruístas, ao combate necessário para não permitir nunca mais, o medo, a prisão, o de-gredo, o assassínio, a barbaridade do obscurantismo, da brutalidade da escravidão.
Eram já, muitos mais os milhares de fora, que os milhares que enchiam o recinto.
Tomavam, mentalmente, nota daqueles nomes heróicos, quando os ouviam: o Pires Jorge, o António Gervásio, o Dinis Miranda, o Rogério Carvalho, o Domingos Abrantes, o Carlos Aboim Inglês a Georgette Ferreira, o Severiano Falcão, o Pedro Soares, a… o… tantos… tantos eram, afinal, as mulheres e os homens que, com o sacrifício das suas vidas até ao paroxismo, se tinham batido para conquistar este dia… o Carlos Costa, Blanqui Teixeira, Ângelo Veloso, José Vitoriano, Joaquim Gomes, Margarida Tengarrinha, Francisco Miguel, José Magro. E os nomes continuavam e cresciam agigantando-os… a Alda Nogueira, o Dias Lourenço o Octávio Pato, a Sofia Ferreira, o Álvaro Cunhal, e muitos, muitos mais. Sobre-viventes da resistência activa à ditadura. Tinham sido carne, sangue e dor submetidos a tortura e humilhação nas mãos dos torcionários da PIDE, não vergaram. Tinham sido no exílio, nas masmorras do regime, e na clandestinidade mais profunda na nossa terra, o cérebro e a vontade de um povo que não se submetera.
As armas que se cruzam são de paz e de trabalho. São de pão, de progresso, de prosperidade. São de conhecimento e solidariedade internacionalista. São a própria liberdade.
Mas são de luta, porque quem fala de paz, sabe da luta a que se não pode fugir para a alcançar e sustentar.
Assim, lembrar a opressão trocada por liberdade, ter a memória de um progresso adiado, de pobreza e fome trocados por braços e vontades de avançar unidos, quem sentiu o amargor da injustiça, degredo e morte… é como se sentisse a patine que revestia a nossa pele, estalar. Povo finalmente liberto, mas não livre.
As bandeiras pareciam empapadas em suor. Os panos e tarjas pesavam, agitadas e erguidas com vigor por braços que teimavam em levantar-se da dor e rompiam o céu alagado, gritavam esperança e determinação, exigiam o fim da guerra e a independência das colónias, a terra a quem a trabalha, as fábricas, os engenhos, os rios, as gruas, as ruas para todos. Casas para todos. Os hospitais, escolas e as ciências, ao serviço do povo. As artes, os teatros, televisão e rádios, sem grades, molduras e muros, nos museus e também nas ruas. E as Forças Armadas, esse povo levantado em armas contra o despotismo, porque o Povo está com o MFA, nas ruas, pronto a defender com a própria vida as liberdades arrancadas à violência do fascismo… que nunca mais!
Raiva e mel, fogo e ternura casam-se nos olhares sequiosos de quem percorreu o deserto dos afectos e da rebeldia durante toda a sua existência e, procura no outro, mais que amiga ou irmão, seus iguais na alma a quem se confia, inquestionavelmente, a própria vida. Aquele e aquela que foram no silêncio e são no canto de alegria libertário, camaradas.
Foi assim que, no fim do comício, se encontraram lado a lado. Já eram um só na corpórea massa humana, um todo no todo que balançava, dando voz aos acordes da “Grândola, Vila Morena” e “Avante Camarada, Avante!”, hinos que não o eram, mas eram já. Os braços enlaçavam-se pelas cinturas aconchegando-se, como se as grilhetas em Abril tivessem sido quebradas para isso, para se encontrarem num aconchego que até ali lhes estava proibido.
Descobriram que já tinham cantado antes com as vozes entrela-çadas, mas não como hoje dando agitação aos corpos pela cintura tocados. Tinha sido em Março, numa noite durante o estertor da “primavera marcelista”, no Coliseu repleto e explosivo, com a polícia de choque à porta e espalhada ao longo da Rua das Portas de Santo Antão. Lembravam-se do José Jorge Letria com o “Tango dos Pequenos Burgueses” e a tocar acompanhando o público que can-tava a sua “Arte Poética”, Adriano Correia de Oliveira, José Afonso que cantou “Milho Verde” e depois encerrou com a “Grândola”, Fran-cisco Fanhais, Manuel Freire, … o Ary dos Santos a dizer “S.A.R.L.” Lembravam-se bem de, à saída, terem gritado a mil vozes pelos corredores e até à porta: “Abaixo a repressão!”.
Ele disse que se chamava Fernando e morava na Ajuda.
Ela respondeu, rodando para ele um sorriso, girassol aberto na noite dos girassóis vermelhos, e disse-lhe que se chamava Carolina e também morava na Ajuda… na Boa-Hora.
Ele que morava no Rio-Seco. Afinal tão perto.
Olhou-a numa carícia que era uma novidade, surpreendendo-se por conseguir esconder a timidez anacrónica que sempre o tolhia. Os dedos dela sobre a camisa encharcada aqueciam-lhe a pele e os sentidos, apesar de todos os demais camaradas já soltos, os que estiveram presos e aqueles que ali se enlaçaram, continuando a cantar e a gritar palavras de ordem, saírem do recinto. Talvez porque fosse mais segura de si dados os dezoito anos que tinha, e ele dezassete em Agosto. Ela beijou-o feliz. Levava na face um sorriso inapagável.
Haviam de sair de mãos dadas. Ele cantava, ela ria, e os dois namoravam aquela liberdade inverosímil e incondicional nascida em Abril.

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