Duelo renhido este, em que o Joaquim, enquanto baralhava as cartas, depois de apontar a vitória do par adversário, colocando uma bola na parte inferior do sétimo de oito riscos verticais, antes do qual estava escrito um E maiúsculo que significava Eles, em contraponto com o N de Nós em cima, separado pelo traço horizontal do pente, talvez assim chamado pela sua configuração a lembrar um daqueles antigos pentes curtos com duas filas de dentes compridos, uma para pentear, depois de usada a outra, mais fina e apertada para limpar os piolhos. O par que primeiro conseguisse alcançar a vitória no pente ganharia um jogo. E os jogos sucediam-se enquanto houvesse luz para ver o desenho dos naipes nas cartas ou que a fome apertasse, batendo no estômago como badaladas do sino da capela a avisar que era tempo da janta.
Na iminência de perder mais um jogo, o Joaquim procurava os erros cometidos, visitando na memória as vazas daquela partida perdida, certamente não por culpa própria mas do aselha do Miguel, seu companheiro de jogo.
À volta, juntava-se um grupo de homens atentos aos pormenores do jogo, conhecedores das cartas calhadas em sorte nas mãos dos que jogavam espreitando por sobre o ombro deste ou daquele, antecipavam mentalmente a jogada de cada um. Por fora, iam meneando a cabeça em discordância com alguma jogada feita ou, do mesmo modo, aquiescendo ao que pensavam ter sido a melhor escolha dos jogadores. Dispostos a ocupar qualquer lugar que vagasse na mesa, por um dos jogadores ter, de repente, uma irreprimível sede e consequente vontade de ir à tasca do largo, de onde eles mesmos iam e vinham de quando em vez, em grupos solidários de dois, três ou mais, por não ficar bem ir beber sem convidar algum dos amigos, pois sempre era um modo de matar o tempo durante o qual só participavam observando o que comentariam depois, como especialistas encartados.
Os adversários, o Manel Prazeres e o Chico “da Lisnave”; um, arredondado e vermelhusco de prazeres e desejos satisfeitos; o outro, seco e magro como a cânula esmagada do restolho do trigo ceifado, entreolharam-se e miraram em silêncio a assistência como quem diz, “Somos muito bons! Não há nada que possam fazer contra isto.”
O Miguel, pintor de automóveis que já estava reformado havia alguns anos, e continuava a sua actividade como quem precisa da arte para comer, recebia agora as cartas dadas pelo Manel, depois do Chico as ter cortado, e pensava que, não só era mais fácil pintar carros do que ganhar à sueca àquela dupla, como as idas colectivas desde a mesa de ferro coberta com cartão, até à tasca do Laurindo, lhe esvaíam o parco ganho da semana anterior ao mesmo tempo que a concentração para o jogo.
O humor azedado, pelos dias incertos e pelo desamor das cartas, ia crescendo no Joaquim, certo do erro do seu par e estava a ponto de explodir.
O Lobo, cão com aspecto de ovelha negra mas grande alvura de espírito – se aos cães, como não humanos, lhes seja permitido usar tal coisa –, pressentia os ânimos do Joaquim, seu dono e sua família conhecida, recolhia a língua arfante ao olhá-lo pachorrento, abando-nava a pose esfíngica, deitava a cabeça sobre os braços dianteiros estendidos, a pensar que raio de coisa seria aquela que juntava tanta gente todas as tardes, sem caça nem proveito, à espera que a noite os acolhesse. Se queriam sombra porque não escolhiam eles a fronde vasta daqueles lódãos-bastardos do jardim, onde poderiam espojar os ossos cansados, olhando os cachos de flores lilases dos jacarandás, em vez de se acogularem, naquela mesa de quatro bancos em volta, sob a ramagem rala da oliveira velha de antiga, mais monumento que árvore, torcida na pele grossa e rendada, que a todos salpicava de sol. Também não era por causa do passaredo provocante, visto que, alguns deles, costumavam levar uns restos de pão que esfarelavam e davam aos roliços e descarados pombos. Achava que tinha algo a ver com a paisagem que se desfrutava do alto da encosta onde tinha aproado a capela que servia de ponte de comando à nau que era o seu adro fronteiro e tinha a quilha encimada por um cruzeiro visível daquele mar com nome de cão: o Tejo.
O Joaquim ia ali para estar com os amigos de sempre, muitos dos quais tinham crescido com ele naquele extremo do bairro de Alcântara. Mas, principalmente, deixar os seus olhos estacionarem de novo nas linhas de aço polido e acetinado da estação de Santo Amaro, memorar o cheiro dos assentos de palhinhas cruzadas onde os suores do dia tinham sido levados, para poder, finalmente, descansar da viagem de uma vida.
O velho guarda-freio da CARRIS, punha agora asas nas rodas dos carros, cujas madeiras chiavam de esforço, sem que o trólei se soltasse nas curvas e ligações da teia aérea que ligava de fios a cidade, respondendo com leveza imaginária, aos toques na campai-nha de badalo preso à extremidade do cordão de couro, que per-corria o eléctrico de ponta a ponta: um puxão na correia suspensa, um toque para parar na próxima; dois puxões rápidos ou duas pancadas no ferro com o alicate de furar bilhetes, dados pelo cobrador à retaguarda, dois toques que significavam que já não havia ninguém para descer ou subir e, por isso, poder partir até que outra vez pu-xada a correia o fizesse deter na paragem seguinte.
Mas nessa tarde, ainda não tinha ido espreitar a Companhia.
– Devias ter entrado a destrunfar… Queres as cartas p’ra quê, p’ra fazer sopa?… És um nabo, pá! Guardas os trunfos p’ró fim quando já não há tentos p’ra ganhar… ca granda porra… perder por dois tentos! – Desabafou por fim o Joaquim.
Como se ficasse ofendido o Miguel respondeu. – Não tinha jogo… só aqueles três trunfos. Tive que assistir às mãos deles…
– O caraças, pá! – Disse o Joaquim irritado. – Quem não aproveita Abril, leva cu Novembro nos cornos!...
– …além disso – prosseguiu o Miguel – a sopa não ia nada mal, se fosse de nabo, que de cartas já estou cheio.
Ufano da vitória anterior, o Chico intrometeu-se:
– Vá lá… Isto é só para passar o tempo e para jogar calados. Bem sabem que a sueca foi inventada por cegos…
Levantou-se um clamor de risada. “Por mudos, Chico! …A sueca foi inventada por mudos!”
– Ah foi? – Replicou o Chico, de olhar acutilante. – É por isso que estes dois “ceguinhos” fazem tanto barulho… é por não conhecerem as cartas!
Rufou novo coro de gargalhadas.
– Ó Chico, vai-te encher de pulgas! – Gritou o Joaquim. – Tens sempre q’achincalhar quem está na mó de baixo. – Disse deixando cair o tom de voz.
– Não é verdade que eu esteja na mó de cima, camarada – replicou o Chico. E se estivesse, depressa dá a mó a volta ao eixo. Mais baixo do que eu desço todos os dias ou noites, ao ventre fundo daqueles monstros na Lisnave, com a caixa da ferramenta e as mangueiras às costas, a respirar das suas entranhas o perigo sempre presente de explosões, os gases, as temperaturas extremas, o barulho ensurde-cedor das máquinas, nas “cavernas”, em espaços onde um miúdo tem que se espalmar e ser contorcionista para chegar ao ponto do trabalho. Mais baixo… só se ficasse calado.
– Mas nunca fico lá em baixo. – Continuou – Volto sempre para dizer aos camaradas que se levantem! Que se unam e batam pela vida com dignidade. Pelos direitos que têm mas lhes não querem dar, para lhes sorverem, vampíricos, todas as lágrimas e suor, todo o sangue e seiva. Que só bem juntos, como os dedos das mãos cerradas, têm a força necessária para se baterem contra quem assim os explora. Aqui também é assim. Não é que eu tenha pelas cartas a voragem que o capitalista tem pelo lucro. Se queremos vencer temos que jogar em equipa. Não devemos acusar os nossos companheiros de não terem feito o melhor. Não os desmotivamos. Devemos criticá-los, e procurarmos que se corrijam, em privado, sem enxovalhos públicos.
O Manuel Prazeres interveio:
– Pára lá com o comício, pá. Julgas que estás num plenário de trabalhadores no estaleiro? Ou queres ensinar o “padre-nosso” a estes dois “vigários”? Os gajos jogam tão bem à sueca como defen-diam os interesses dos companheiros lá nas empresas… Sabem-na toda e não na usam.
– Não sei se ensino alguma coisa… sei que aprendo sempre. Aprendo porque penso. No buraco fundo de onde vou conseguindo sair todos os dias e algumas noites, e de cada vez que chego ao convés, à doca, ao refeitório, é como se se libertasse um ás de trunfo do baralho pensado lá em baixo. Sei o que aprendo: que é preciso pensar antes de falar e agir à toa. Não sei se o ensino, não sou professor… Sou operário!
O Joaquim recolhia as cartas da mesa e contava agora os tentos da primeira vaza do novo jogo:
– Onze… Vinte e um… Trinta e dois… trinta e quatro. Já livrámos este e vamos ganhá-lo Miguel. Desta vez abre os olhos, vamos ga-nhar… E a seguir damos-lhes uma chita!
O Lobo, sentado, abanou o rabo a varrer o chão de pedra, olhando com olhos de cão o dono e, rapidamente, virou a sua atenção para os pombos que por ali pastavam a bicar migalhas e areias entre o lajedo solto. Farejando de focinho levantado e com latidos e rosnidos afogados, punha o ar mais triste de canídeo que se possa relatar. Levantou os quartos traseiros e, com as patas da frente esticadas, espreguiçou-se bocejando, o que fez revoar a passarada e ir pousar, espalhada, na cornija e no varandim de ferro em volta do telhado da ermida.
Afastou-se, solene, do grupo e foi ver, o que todos eles, sem excepção, iam mirar quando davam uma volta completa ao terreiro, partindo de um ponto para chegarem quase ao mesmo sítio donde tinham saído, para ir e vir ao Laurindo situado a poucos metros da mesa onde os amigos jogavam. Paravam sempre junto do murete em frente dos portões largos, trabalhados em ferro forjado, da pequena igreja.
E pensou – se é lícito a um cão, quase humano é certo, talvez até com espírito próprio, matutar – ser inacreditável a atracção sórdida e estranha, que levava os homens a procurar o abandono daqueles telhados que, em baixo, sobre janelas em ruína, umas estreitas outras redondas, telhados zincados, guindastes parados, chaminés afiadas a cravarem-se perdidas no céu, em busca do seu próprio fumo antigo nas nuvens esparsas. E mais telhados encostados uns aos outros como espinhas, parecendo que assim, lado a lado, todos juntos, fábricas, barracões, oficinas, ficassem menos sós.
Não. Teria que ser, sim, por causa daquela monumental estrutura, de betão e aço cor de sangue, que unia as margens e era, visivel-mente, o lugar mais vivo da policromada tapeçaria do horizonte.
Devia ser isso; os homens queriam sempre partir, mudar, trans-formar e fazer pontes entre eles.
Por isso iam ali, aqueles que ficavam. Nos intervalos das cartas e dos copos iam visitar e namorar, de longe, a saudade, que estendia ao sol a manta de retalhos que cobrira, durante tantos anos, as suas vidas.
Em silêncio afagavam-lhe a cabeça como quem acaricia as águas daquele mar além com nome de cão. O Tejo.
10 de Julho de 2010
João Rodrigues

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