Largo da Ajuda
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sexta-feira, 15 de abril de 2011
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
sábado, 29 de janeiro de 2011
Estranho céu de Julho
Estranho céu de Julho
Há uma revolta latente na ameaça emboscada que emana daquelas nuvens plúmbeas e prenhes, cujas águas não re-bentam, e vogam neste céu, como aquele imparável anel metálico no contador da luz, constante e veloz parece que vai trazer qualquer coisa no fim mas não tem fim, não traz nada, excepto a sombra pesada da conta no fim do mês. Enfim, sombras como as do céu de hoje… estranho céu de Julho.
E, é certo que, este é o meu céu ou, pelo menos, a parte dele que me cabe possuir agora mesmo.
Visto daqui, imóvel, no sítio onde estou, o céu tem fronteiras. Limites que são do talhe dos prédios, do rendado da copa das árvores, da profundidade de outra rua e, até, do ondulado dos montes da outra margem do rio, se uma cortina de nevoeiro o não encobrir, como mais uma venda que os meus olhos não ultrapassem neste pesquisar de perspectivas. É verdade então que, se me deslocar, o céu passa a ter outros horizontes, barreiras novas para o meu olhar. Digamos que são diferentes pontos de vista.
É por isso, ou quase só por isso, que aqui estou e olho o céu. Para sentir que o tempo passa passo a passo e, andando eu, muda tudo, desde a dimensão e disposição dos obstáculos à minha volta, até o recorte do céu ser um desenho novo.
Não pinto a vida com cores diferentes das que agora vejo. Mas, se o que vislumbro é cinza e triste cor, sei bem que, se continuar a andar, tudo muda; virá o sol, o azul, o mar até.
E, enquanto as minhas ideias de perseguir vastidões se materializam, ou atenuam, como a luz ou a dor, num oceano plúmbeo e prenhe, emboscando ameaças enquanto as águas não rebentam, como eu próprio revoltadas, não espero.
Pés a caminho de céus e areais ensolarados. Só preciso acreditar que, mudando-lhe as raias, o céu mudará, e en-tão…
Então eu chego lá.
Lisboa, 28 de Julho de 2009
João Rodrigues
domingo, 10 de outubro de 2010
Al blogue
Al blogue
Portugal é o sítio do universo onde se acumulam mais genuínos portugueses por quilómetro quadrado.
Este é (o) Al blogue, assinado por mim, que, como o nome sugere, não é de pura raça lusitana. Traz aromas e securas, paladares, tons de pele, desassossegos, cítaras e alaúdes – embora talvez fadistas – inquietudes e até poesia entre outras armas de vivificação massiva, nos ventos brandos e quentes estendidos do Norte de África a toda a bacia mediterrânica.
Não ser de raça lusitana pura e dura, não significa menos ímpeto nas cruzadas da modernidade, como bem se observa – que me perdoem os equídeos – dos arroubos conquistadores por parte de alguns asnos. – Torno a pedir perdão, desta vez ao criador, pela possível ofensa contida na comparação com os nobres animais.
E, apesar da civilizadora, cristianíssima e bem intencionada agressão, que envolve o nome de Portugal, ter o sucesso que todo o mundo lhe reconhece, não posso deixar de pensar ser tudo fruto dos frutos que somos na imensidade genealógica que uniu celtas e lusitanos, gregos com lusitanos, e os bárbaros: vândalos, suevos, alanos e visigodos com lusitanos. Cartagineses, fenícios, romanos do império, magiares, francos, judeus, até que o plano da Terra se arredondasse e, os lusitanos, continuassem a apurar-se com afro subsarianos – e nem Darwin acreditou que daí resultassem as zebras –, índios, das Índias Ocidentais e das Outras do Prestes João, chineses e mais que haja e não me lembre, em todo o resto do mundo que, estando tão sossegado antes da lusa arribação, passaram a conhecer-nos como a prolífera espécie da civilização ocidental.
No fim, só se salvaram os puro-sangue de Alter do Chão, para manter viva a esperança de paz, inter rácica, no alargamento da casta alentejana aos confins do Universo.
domingo, 3 de outubro de 2010
Nós
Nós
Vinham de todos os lados em direcção à praça. Dezenas saíam dos autocarros, do metropolitano e, tantos, tantos, a pé, das ruas ao redor. Confluíam em grupos ou isolados, na mesma direcção, levan-do no rosto a alegria, a inquietante exaltação, de quem preenche o momento perfeito, o sublime encontro entre si e a História. Tudo o que aconteceu no passado, escrito ou não, pouco importava, servira apenas de lastro para que cada um, nesse dia, nessa hora, ali se encontrasse para ser o traço de união entre o ido e o porvir.
O trajo de circunstância era o costumeiro. Aquele com que tinham saído de manhã para o trabalho, para as escolas, para as actividades do dia-a-dia, nesse dia diferente de todos os outros que culminava no tremor novo, no sentir diferente, de quem toma de assalto a última barricada e, aí levanta alto, com a mão fechada erguida e um brado profundo de libertação final, a bandeira do seu sangue feita.
Eram centenas, juntando-se, olhavam-se. Mais centenas agora juntos, cantavam, riam, falavam… avançavam. Milhares eram um corpo só, feito de firmeza e de esperança, de um amor fraterno inquebrantável. Homens e mulheres de todas as idades. Iguais.
Os que traziam chapéus-de-chuva, abriam-nos sob a intempérie que já não era ameaça, mesmo para aqueles que de casaco ou blusão e até de camisa apenas, decididos, pensavam no perigo sério em que tinham vivido antes, ou mesmo no perigo agora vivo, que constituiria não se entregarem, generosos e altruístas, ao combate necessário para não permitir nunca mais, o medo, a prisão, o de-gredo, o assassínio, a barbaridade do obscurantismo, da brutalidade da escravidão.
Eram já, muitos mais os milhares de fora, que os milhares que enchiam o recinto.
Tomavam, mentalmente, nota daqueles nomes heróicos, quando os ouviam: o Pires Jorge, o António Gervásio, o Dinis Miranda, o Rogério Carvalho, o Domingos Abrantes, o Carlos Aboim Inglês a Georgette Ferreira, o Severiano Falcão, o Pedro Soares, a… o… tantos… tantos eram, afinal, as mulheres e os homens que, com o sacrifício das suas vidas até ao paroxismo, se tinham batido para conquistar este dia… o Carlos Costa, Blanqui Teixeira, Ângelo Veloso, José Vitoriano, Joaquim Gomes, Margarida Tengarrinha, Francisco Miguel, José Magro. E os nomes continuavam e cresciam agigantando-os… a Alda Nogueira, o Dias Lourenço o Octávio Pato, a Sofia Ferreira, o Álvaro Cunhal, e muitos, muitos mais. Sobre-viventes da resistência activa à ditadura. Tinham sido carne, sangue e dor submetidos a tortura e humilhação nas mãos dos torcionários da PIDE, não vergaram. Tinham sido no exílio, nas masmorras do regime, e na clandestinidade mais profunda na nossa terra, o cérebro e a vontade de um povo que não se submetera.
As armas que se cruzam são de paz e de trabalho. São de pão, de progresso, de prosperidade. São de conhecimento e solidariedade internacionalista. São a própria liberdade.
Mas são de luta, porque quem fala de paz, sabe da luta a que se não pode fugir para a alcançar e sustentar.
Assim, lembrar a opressão trocada por liberdade, ter a memória de um progresso adiado, de pobreza e fome trocados por braços e vontades de avançar unidos, quem sentiu o amargor da injustiça, degredo e morte… é como se sentisse a patine que revestia a nossa pele, estalar. Povo finalmente liberto, mas não livre.
As bandeiras pareciam empapadas em suor. Os panos e tarjas pesavam, agitadas e erguidas com vigor por braços que teimavam em levantar-se da dor e rompiam o céu alagado, gritavam esperança e determinação, exigiam o fim da guerra e a independência das colónias, a terra a quem a trabalha, as fábricas, os engenhos, os rios, as gruas, as ruas para todos. Casas para todos. Os hospitais, escolas e as ciências, ao serviço do povo. As artes, os teatros, televisão e rádios, sem grades, molduras e muros, nos museus e também nas ruas. E as Forças Armadas, esse povo levantado em armas contra o despotismo, porque o Povo está com o MFA, nas ruas, pronto a defender com a própria vida as liberdades arrancadas à violência do fascismo… que nunca mais!
Raiva e mel, fogo e ternura casam-se nos olhares sequiosos de quem percorreu o deserto dos afectos e da rebeldia durante toda a sua existência e, procura no outro, mais que amiga ou irmão, seus iguais na alma a quem se confia, inquestionavelmente, a própria vida. Aquele e aquela que foram no silêncio e são no canto de alegria libertário, camaradas.
Foi assim que, no fim do comício, se encontraram lado a lado. Já eram um só na corpórea massa humana, um todo no todo que balançava, dando voz aos acordes da “Grândola, Vila Morena” e “Avante Camarada, Avante!”, hinos que não o eram, mas eram já. Os braços enlaçavam-se pelas cinturas aconchegando-se, como se as grilhetas em Abril tivessem sido quebradas para isso, para se encontrarem num aconchego que até ali lhes estava proibido.
Descobriram que já tinham cantado antes com as vozes entrela-çadas, mas não como hoje dando agitação aos corpos pela cintura tocados. Tinha sido em Março, numa noite durante o estertor da “primavera marcelista”, no Coliseu repleto e explosivo, com a polícia de choque à porta e espalhada ao longo da Rua das Portas de Santo Antão. Lembravam-se do José Jorge Letria com o “Tango dos Pequenos Burgueses” e a tocar acompanhando o público que can-tava a sua “Arte Poética”, Adriano Correia de Oliveira, José Afonso que cantou “Milho Verde” e depois encerrou com a “Grândola”, Fran-cisco Fanhais, Manuel Freire, … o Ary dos Santos a dizer “S.A.R.L.” Lembravam-se bem de, à saída, terem gritado a mil vozes pelos corredores e até à porta: “Abaixo a repressão!”.
Ele disse que se chamava Fernando e morava na Ajuda.
Ela respondeu, rodando para ele um sorriso, girassol aberto na noite dos girassóis vermelhos, e disse-lhe que se chamava Carolina e também morava na Ajuda… na Boa-Hora.
Ele que morava no Rio-Seco. Afinal tão perto.
Olhou-a numa carícia que era uma novidade, surpreendendo-se por conseguir esconder a timidez anacrónica que sempre o tolhia. Os dedos dela sobre a camisa encharcada aqueciam-lhe a pele e os sentidos, apesar de todos os demais camaradas já soltos, os que estiveram presos e aqueles que ali se enlaçaram, continuando a cantar e a gritar palavras de ordem, saírem do recinto. Talvez porque fosse mais segura de si dados os dezoito anos que tinha, e ele dezassete em Agosto. Ela beijou-o feliz. Levava na face um sorriso inapagável.
Haviam de sair de mãos dadas. Ele cantava, ela ria, e os dois namoravam aquela liberdade inverosímil e incondicional nascida em Abril.
domingo, 26 de setembro de 2010
A sueca
Duelo renhido este, em que o Joaquim, enquanto baralhava as cartas, depois de apontar a vitória do par adversário, colocando uma bola na parte inferior do sétimo de oito riscos verticais, antes do qual estava escrito um E maiúsculo que significava Eles, em contraponto com o N de Nós em cima, separado pelo traço horizontal do pente, talvez assim chamado pela sua configuração a lembrar um daqueles antigos pentes curtos com duas filas de dentes compridos, uma para pentear, depois de usada a outra, mais fina e apertada para limpar os piolhos. O par que primeiro conseguisse alcançar a vitória no pente ganharia um jogo. E os jogos sucediam-se enquanto houvesse luz para ver o desenho dos naipes nas cartas ou que a fome apertasse, batendo no estômago como badaladas do sino da capela a avisar que era tempo da janta.
Na iminência de perder mais um jogo, o Joaquim procurava os erros cometidos, visitando na memória as vazas daquela partida perdida, certamente não por culpa própria mas do aselha do Miguel, seu companheiro de jogo.
À volta, juntava-se um grupo de homens atentos aos pormenores do jogo, conhecedores das cartas calhadas em sorte nas mãos dos que jogavam espreitando por sobre o ombro deste ou daquele, antecipavam mentalmente a jogada de cada um. Por fora, iam meneando a cabeça em discordância com alguma jogada feita ou, do mesmo modo, aquiescendo ao que pensavam ter sido a melhor escolha dos jogadores. Dispostos a ocupar qualquer lugar que vagasse na mesa, por um dos jogadores ter, de repente, uma irreprimível sede e consequente vontade de ir à tasca do largo, de onde eles mesmos iam e vinham de quando em vez, em grupos solidários de dois, três ou mais, por não ficar bem ir beber sem convidar algum dos amigos, pois sempre era um modo de matar o tempo durante o qual só participavam observando o que comentariam depois, como especialistas encartados.
Os adversários, o Manel Prazeres e o Chico “da Lisnave”; um, arredondado e vermelhusco de prazeres e desejos satisfeitos; o outro, seco e magro como a cânula esmagada do restolho do trigo ceifado, entreolharam-se e miraram em silêncio a assistência como quem diz, “Somos muito bons! Não há nada que possam fazer contra isto.”
O Miguel, pintor de automóveis que já estava reformado havia alguns anos, e continuava a sua actividade como quem precisa da arte para comer, recebia agora as cartas dadas pelo Manel, depois do Chico as ter cortado, e pensava que, não só era mais fácil pintar carros do que ganhar à sueca àquela dupla, como as idas colectivas desde a mesa de ferro coberta com cartão, até à tasca do Laurindo, lhe esvaíam o parco ganho da semana anterior ao mesmo tempo que a concentração para o jogo.
O humor azedado, pelos dias incertos e pelo desamor das cartas, ia crescendo no Joaquim, certo do erro do seu par e estava a ponto de explodir.
O Lobo, cão com aspecto de ovelha negra mas grande alvura de espírito – se aos cães, como não humanos, lhes seja permitido usar tal coisa –, pressentia os ânimos do Joaquim, seu dono e sua família conhecida, recolhia a língua arfante ao olhá-lo pachorrento, abando-nava a pose esfíngica, deitava a cabeça sobre os braços dianteiros estendidos, a pensar que raio de coisa seria aquela que juntava tanta gente todas as tardes, sem caça nem proveito, à espera que a noite os acolhesse. Se queriam sombra porque não escolhiam eles a fronde vasta daqueles lódãos-bastardos do jardim, onde poderiam espojar os ossos cansados, olhando os cachos de flores lilases dos jacarandás, em vez de se acogularem, naquela mesa de quatro bancos em volta, sob a ramagem rala da oliveira velha de antiga, mais monumento que árvore, torcida na pele grossa e rendada, que a todos salpicava de sol. Também não era por causa do passaredo provocante, visto que, alguns deles, costumavam levar uns restos de pão que esfarelavam e davam aos roliços e descarados pombos. Achava que tinha algo a ver com a paisagem que se desfrutava do alto da encosta onde tinha aproado a capela que servia de ponte de comando à nau que era o seu adro fronteiro e tinha a quilha encimada por um cruzeiro visível daquele mar com nome de cão: o Tejo.
O Joaquim ia ali para estar com os amigos de sempre, muitos dos quais tinham crescido com ele naquele extremo do bairro de Alcântara. Mas, principalmente, deixar os seus olhos estacionarem de novo nas linhas de aço polido e acetinado da estação de Santo Amaro, memorar o cheiro dos assentos de palhinhas cruzadas onde os suores do dia tinham sido levados, para poder, finalmente, descansar da viagem de uma vida.
O velho guarda-freio da CARRIS, punha agora asas nas rodas dos carros, cujas madeiras chiavam de esforço, sem que o trólei se soltasse nas curvas e ligações da teia aérea que ligava de fios a cidade, respondendo com leveza imaginária, aos toques na campai-nha de badalo preso à extremidade do cordão de couro, que per-corria o eléctrico de ponta a ponta: um puxão na correia suspensa, um toque para parar na próxima; dois puxões rápidos ou duas pancadas no ferro com o alicate de furar bilhetes, dados pelo cobrador à retaguarda, dois toques que significavam que já não havia ninguém para descer ou subir e, por isso, poder partir até que outra vez pu-xada a correia o fizesse deter na paragem seguinte.
Mas nessa tarde, ainda não tinha ido espreitar a Companhia.
– Devias ter entrado a destrunfar… Queres as cartas p’ra quê, p’ra fazer sopa?… És um nabo, pá! Guardas os trunfos p’ró fim quando já não há tentos p’ra ganhar… ca granda porra… perder por dois tentos! – Desabafou por fim o Joaquim.
Como se ficasse ofendido o Miguel respondeu. – Não tinha jogo… só aqueles três trunfos. Tive que assistir às mãos deles…
– O caraças, pá! – Disse o Joaquim irritado. – Quem não aproveita Abril, leva cu Novembro nos cornos!...
– …além disso – prosseguiu o Miguel – a sopa não ia nada mal, se fosse de nabo, que de cartas já estou cheio.
Ufano da vitória anterior, o Chico intrometeu-se:
– Vá lá… Isto é só para passar o tempo e para jogar calados. Bem sabem que a sueca foi inventada por cegos…
Levantou-se um clamor de risada. “Por mudos, Chico! …A sueca foi inventada por mudos!”
– Ah foi? – Replicou o Chico, de olhar acutilante. – É por isso que estes dois “ceguinhos” fazem tanto barulho… é por não conhecerem as cartas!
Rufou novo coro de gargalhadas.
– Ó Chico, vai-te encher de pulgas! – Gritou o Joaquim. – Tens sempre q’achincalhar quem está na mó de baixo. – Disse deixando cair o tom de voz.
– Não é verdade que eu esteja na mó de cima, camarada – replicou o Chico. E se estivesse, depressa dá a mó a volta ao eixo. Mais baixo do que eu desço todos os dias ou noites, ao ventre fundo daqueles monstros na Lisnave, com a caixa da ferramenta e as mangueiras às costas, a respirar das suas entranhas o perigo sempre presente de explosões, os gases, as temperaturas extremas, o barulho ensurde-cedor das máquinas, nas “cavernas”, em espaços onde um miúdo tem que se espalmar e ser contorcionista para chegar ao ponto do trabalho. Mais baixo… só se ficasse calado.
– Mas nunca fico lá em baixo. – Continuou – Volto sempre para dizer aos camaradas que se levantem! Que se unam e batam pela vida com dignidade. Pelos direitos que têm mas lhes não querem dar, para lhes sorverem, vampíricos, todas as lágrimas e suor, todo o sangue e seiva. Que só bem juntos, como os dedos das mãos cerradas, têm a força necessária para se baterem contra quem assim os explora. Aqui também é assim. Não é que eu tenha pelas cartas a voragem que o capitalista tem pelo lucro. Se queremos vencer temos que jogar em equipa. Não devemos acusar os nossos companheiros de não terem feito o melhor. Não os desmotivamos. Devemos criticá-los, e procurarmos que se corrijam, em privado, sem enxovalhos públicos.
O Manuel Prazeres interveio:
– Pára lá com o comício, pá. Julgas que estás num plenário de trabalhadores no estaleiro? Ou queres ensinar o “padre-nosso” a estes dois “vigários”? Os gajos jogam tão bem à sueca como defen-diam os interesses dos companheiros lá nas empresas… Sabem-na toda e não na usam.
– Não sei se ensino alguma coisa… sei que aprendo sempre. Aprendo porque penso. No buraco fundo de onde vou conseguindo sair todos os dias e algumas noites, e de cada vez que chego ao convés, à doca, ao refeitório, é como se se libertasse um ás de trunfo do baralho pensado lá em baixo. Sei o que aprendo: que é preciso pensar antes de falar e agir à toa. Não sei se o ensino, não sou professor… Sou operário!
O Joaquim recolhia as cartas da mesa e contava agora os tentos da primeira vaza do novo jogo:
– Onze… Vinte e um… Trinta e dois… trinta e quatro. Já livrámos este e vamos ganhá-lo Miguel. Desta vez abre os olhos, vamos ga-nhar… E a seguir damos-lhes uma chita!
O Lobo, sentado, abanou o rabo a varrer o chão de pedra, olhando com olhos de cão o dono e, rapidamente, virou a sua atenção para os pombos que por ali pastavam a bicar migalhas e areias entre o lajedo solto. Farejando de focinho levantado e com latidos e rosnidos afogados, punha o ar mais triste de canídeo que se possa relatar. Levantou os quartos traseiros e, com as patas da frente esticadas, espreguiçou-se bocejando, o que fez revoar a passarada e ir pousar, espalhada, na cornija e no varandim de ferro em volta do telhado da ermida.
Afastou-se, solene, do grupo e foi ver, o que todos eles, sem excepção, iam mirar quando davam uma volta completa ao terreiro, partindo de um ponto para chegarem quase ao mesmo sítio donde tinham saído, para ir e vir ao Laurindo situado a poucos metros da mesa onde os amigos jogavam. Paravam sempre junto do murete em frente dos portões largos, trabalhados em ferro forjado, da pequena igreja.
E pensou – se é lícito a um cão, quase humano é certo, talvez até com espírito próprio, matutar – ser inacreditável a atracção sórdida e estranha, que levava os homens a procurar o abandono daqueles telhados que, em baixo, sobre janelas em ruína, umas estreitas outras redondas, telhados zincados, guindastes parados, chaminés afiadas a cravarem-se perdidas no céu, em busca do seu próprio fumo antigo nas nuvens esparsas. E mais telhados encostados uns aos outros como espinhas, parecendo que assim, lado a lado, todos juntos, fábricas, barracões, oficinas, ficassem menos sós.
Não. Teria que ser, sim, por causa daquela monumental estrutura, de betão e aço cor de sangue, que unia as margens e era, visivel-mente, o lugar mais vivo da policromada tapeçaria do horizonte.
Devia ser isso; os homens queriam sempre partir, mudar, trans-formar e fazer pontes entre eles.
Por isso iam ali, aqueles que ficavam. Nos intervalos das cartas e dos copos iam visitar e namorar, de longe, a saudade, que estendia ao sol a manta de retalhos que cobrira, durante tantos anos, as suas vidas.
Em silêncio afagavam-lhe a cabeça como quem acaricia as águas daquele mar além com nome de cão. O Tejo.
10 de Julho de 2010
João Rodrigues
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